Para Quem Ainda Vier A Me Ouvir

Para Quem Ainda Vier A Me Ouvir

Eu escrevo para os que morrem
Aqueles que pulsam derradeiramente
Aos que estancam o fluxo, é para eles minhas perambulices
Aos que respiram, sou sussurros onomatopéicos fora de ordem
Legado da intoxicação pela osmose contagiosa
Eu escrevo para os que gritam a dor do som depois de ouvir o som da dor
O incolor tem textura aconchegante mas espeta os sentidos
Porque o sonho dos vivos é conhecer os motivos dos que já se foram
É um vício medroso de quem se perde pelo caminho
Eu escrevo para desmedidos, para os descabidos e para desconcertados
As únicas multidões que poderiam ler meus casebres
Minha morada está nestes escárnios por eles decifrados
Os alfarrábios forjados numa torre sem janelas construída de fora pra dentro
Os tantos meios que as justificativas não contemplam um fim
Os tantos amanheceres que já chegaram tarde
Os vastos vestígios que apagam as pistas
Entre as coisas que eu escrevo não há leituras de alforria
Não há clarões nos quais se veja sombras
Tampouco universos ensolarados
As palavras são fuligem que emperra o norte
Para onde vão o que se encontra é o enigma
O decifra-me ou te devoro nosso de cada dia
O sangue necessário para o desbloqueio
O acometimento das dores pelos poros
Os conchavos coléricos reincidentes
As fábulas competentes
Os inocentes
A chama
O suor
Ar
O
Eu

Anderson Ribeiro

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